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O ofício de ourives

 

As principais fontes dos materiais não traduzem o conhecimento da história da joalharia nacional. As condições de trabalho dos ourives, a sua formação, organização da oficina e a comercialização deixaram marcas profundas na arte.

Não são muitas as referências na documentação existente à actividade dos antigos ourives do ouro, os joalheiros, como é denominado nos dias de hoje. É um pouco difícil reconstruir a oficina de um ourives na época medieval que não deve ter alterado em muito o seu aspecto após o Renascimento.

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O ofício de ourives

Sabemos que se tratavam de pequenas divisões, ao nível da rua, tendo muitas vezes, no andar superior, a habitação do Mestre. Este produzia na companhia de vários oficiais e aprendizes, dedicando-se estes, de início, a tarefas elementares como esticar o fio de ouro e acabamento, como polimento às obras.

Aos oficiais cabiam as tarefas de maior responsabilidade como fundir os metais preciosos, cinzelar as peças e cravar as gemas

No século XVI alguns ourives possuíam escravos que, embora proibidos de aprender o ofício, podiam tanger os foles das forjas e martelar o ouro e a prata. Quando um jovem iniciava a sua aprendizagem como ourives e, quando os seus familiares não exerciam este ofício, reflectia uma lenda em que um Mestre tomasse a responsabilidade de o ensinar.

O ofício de ourives

Durante vários anos o aprendiz deveria exercer uma série de funções a que o Mestre retribuía ensinando a sua arte e dando-lhe, por vezes, tecto e alimentação. Este processo, conhecido em vários ofícios, obrigava à realização notarial de um contrato conhecido como "de servidão e aprendizagem".

Durante o número de anos estabelecido para "servidão", o moço, com cerca de dez ou onze anos, aprenderia os rudimentos do ofício.

Por vezes, estes aprendizes eram seduzidos a continuar a sua aprendizagem junto de outro Mestre ourives mas, se interrompessem o período estipulado no contrato, incorriam em pesadas penas descritas nos regimentos.

O ofício de ourives

No final do seu contrato, se o aprendiz revelasse um conhecimento suficiente do ofício, atingia o grau de Oficial. Este grau não exigia exame devendo apenas, para o efeito, ser reconhecido por um Mestre.

Dentro da hierarquia da oficina passava a poder executar todas as tarefas da sua profissão, sendo-lhe vedado, apenas abrir atividade. 

Para atingir o grau de Mestre necessitava de realizar provas que seriam julgadas por outros ourives. Essa prova consistia na realização de uma obra-mestra. No século XVI seria um cinto preparado para esmaltar e uma jóia propriamente dita. Muito provavelmente era-lhe apresentado o desenho de uma peça que ele teria de executar em ouro.

O ofício de ourives

A regulamentação do ofício dos ourives do ouro é algo tardia. No primeiro regimento consagrado à sua carreira, de 1512, apenas se consagram disposições relativas à defesa dos compradores.

Na primeira reforma do regimento, em 1538, surge, pela primeira vez, a obrigatoriedade dos ourives realizarem provas de mestria.

Com a crescente importância de Lisboa, desde 1415, como centro de transacção de produtos africanos, pagos com prata pelas nações europeias, concentravam-se vários ourives estrangeiros nesta cidade. 

O ofício de ourives

Em 1460 e pós proposta da Câmara de Lisboa, D. Afonso V confirma algumas ordenações respeitantes à fiança e fiscalização dos ourives estrangeiros que assentavam tenda em Lisboa. Os ourives nacionais usavam, junto do Rei, o poderoso argumento que múltiplas vezes utilizariam para defender as suas pretensões: as falsificações.

Cabe referir que, nesta época, são os ourives que fiscalizavam o teor dos metais preciosos e os pesos, actividades de enorme importância económica. Quando um ourives estrangeiro desejasse iniciar atividade, deveria praticar durante um ano na oficina de um ourives estabelecido com o fim de se saber se "he home de bão viver" como refere o Regimento dos Ourives do Ouro de Lisboa.

O ofício de ourives

A venda das obras era feita na própria tenda, em expositores colocados na rua, ou sob a janela da oficina. Várias gravuras quinhentistas apresentavam alguns clientes transaccionando junto das janelas.

Da Lisboa quatrocentista conhece-se uma ordenação, datada de 1386, que nos ajuda a conhecer quer o costume dos ourives de exibir as suas obras no exterior da tenda, quer as características da própria Rua da Ourivesaria, que concentrou, até 1514, todos os ourives do ouro e da prata na Capital: "(proíbe-se a qualquer) Ouriuez que na rua da Oluizaria morar que se estenda pera a rua com os tauoleiros dante as suas portas que quamto diz as ombreiras de sseus portaaes nem tenha poyaaes na dicta Rua porquanto a dicta rrua he mujto estreita e a fazem mais estreita..."

O ofício de ourives

Com D. Manuel é criada, no citado ano de 1514, a Rua Nova d'El Rey onde os ourives do ouro são obrigados a afixarem-se, já que a Rua da Ourivesaria não comportava tantas tendas, e a rivalidade entre as duas bandeiras, a dos ourives do ouro e a dos ourives da prata crescia dia a dia.

Já nos finais do século XVIII, uma ordenação da Câmara de Lisboa proíbe que os ourives tivessem fora das suas lojas tabuletas e balções com mais de dois palmos de largura. O terramoto já há algumas décadas destruíra as antigas ruas dos ourives da prata e do ouro, mas mesmo com novos arruamentos, permaneciam os velhos problemas.

O ofício de ourives

Tal como ainda hoje, vários ourives vendiam as suas jóias de feira em feira, sobretudo anéis em prata   ou ouro, umas vezes com pedras preciosas e outras com simples vidros de cor. Se bem que as jóias em ouro tivessem tratamento especial, era grande a produção de peças em prata mais acessíveis. 

O ofício de ourives

No século XVI, na comarca de Entre-Douro-e-Minho vendiam-se, especialmente nas feiras e festas, obras em prata como cruzes e cordões. As falsificações de pedras preciosas tiveram grande desenvolvimento.

Tal não se passou apenas em quinhentos: várias ordenações, ao longo dos séculos XVII e XVIII, procuraram igualmente lutar com o problema das falsificações de gemas e pérolas, o que revela o pouco controlo efectivo das autoridades sobre as obras de joalharia

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