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Algumas gemas do Portugal de Setecentos e suas proveniências

 

Referência bibliográfica:
Galopim de Carvalho R. (2000) Algumas gemas do Portugal de setecentos e suas proveniências. Oceanos, 43, 36–50.

Desde cedo na epopeia dos descobrimentos que Portugal assumiu algum protagonismo no domínio e comércio das pedrarias, em particular nas provenientes do médio e extremo oriente, transformando Goa na capital das recentes esmeraldas do «Peru» via Sevilha, os diamantes das várias ocorrências da Índia e do Bornéu (então os únicos produtores mundias desta gema), os rubis do Pegú e as safiras azuis do Ceilão, as pérolas finas (então também designadas de aljôfares) do Bahrain e de Manaar, entre outras demais gemas e suas imitações.

Gemas da ourivesaria e joalharia portuguesa

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A rota marítima do oriente aberta por Vasco da Gama trouxe consequências marcantes na ourivesaria e joalharia europeias, pelos materiais gemeológicos de primeira escolha que começaram então a ficar disponíveis e mais acessíveis, como também pela procura do luxo associada às novas fortunas decorrentes das inúmeras oportunidades comerciais abertas pelos portugueses a toda a Europa.

No ínicio de Setecentos, o domínio português no comércio das pedrarias era uma sombra do que tinha sido no século XVI devido a causas diversas, nomeadamente a perda do Ceilão em 1658 e de algum domínio marítimo no Índico para os holandeses, e as consequências muito negativas da política anti-semita da Inquisição que, no final de Quinhentos, afastou de Portugal inúmeros comerciantes e lapidários de diamantes que se instalaram em Amesterdão e Antuérpia. 

Gemas da ourivesaria e joalharia portuguesa

Curiosamente, na actualidade, Antuérpia é a capital mundial do comércio do diamante bruto e lapidado, provavelmente uma herança dos muitos portugueses que para aí emigraram no último quartel do século XVI.

A grande motivação de procura de riquezas minerais no interior do Brasil promoveu as expedições dos Bandeirantes que tiveram lugar a partir da segunda metade do século XVI e que deram resultados práticos muito importantes para a economia portuguesa, nomeadamente com a localização das ricas jazidas de ouro e de diamantes. Dada a sua importância gemeológica, resume-se as conclusões comentadas de quatro destas expedições:

1554 - Expedição comandada por Francisco Spinosa que durante mais de 3 anos avançou 1800 km pelo rio Jequitinhonha (onde actualmente se dragam diamantes), tendo-se somente localizado o que Conrad Gesner, no seu "De Rerun Fossilum (1565), denominou de «espécie cilíndrica de esmeralda brasileira» (mais tarde identificadas como turmalinas).

1568 - Nesta expedição comandada por Martim de carvalho novamente encontradas «esmeraldas brasileiras recolhidas algumas pepitas de ouro perto da localidade de Minas Novas (situada nas margens do rio Fanaro, afluente do Jequitinhonha), no actual estado de Minas Gerais. Nesta altura, acreditava-se que as turmalinas verdes eram espécies inferiores de esmeralda, de menor valor equivalente ao de agumas safiras azuis), havendo até referências toponímicas curiosas, como «Montanha das Esmeraldas», actualmente identificada como zona de ocorrência de turmalinas.

1579 - Perto da cidade de Aracuaí, no norte do Estado de Minas Gerais, os homens de Fernandez Tourinho mais uma vez repetem achados de «esmeraldas brasileiras», de safiras (turmalinas azuis) e de turquesas.

1674 - A importante e longa expedição liderada por Fernão Dias Paes Leme renovou achados de «esmeraldas brasileiras» e de «safiras» (turmalinas verdes e azuis, respectivamente), havendo o registo de 128 gemas que chegaram a Lisboa, incluindo também águas-marinhas e topázios brasileiros.

O potencial económico dos ricos depósitos gemíferos descobertos e descritos pelos bandeirantes foi virtualmente ignorado durante quase 200 anos, potencial este que hoje em dia faz do Brasil um dos mais importantes países produtores de pedras de cor do mundo. Logo no início da segunda metade do século XVIII, em 1751, houve o testemunho da descoberta de depósitos do que então se chamou «rubi brasileiro» perto de Vila Rica, hoje Ouro Preto.

Mais tarde identificados como topázios, e apelidados de topázios brasileiros, foram apresentados em Lisboa em 1768, o que foi amplamente festejado na corte. Hoje em dia, esta região ainda conta com as mais importantes ocorrências de topázio imperial no mundo.

Todavia, a provavelmente mais importante descoberta gemológica do Brasil de Setecentos e que revolucionou por completo a joalharia em Portugal foi o diamante. Até então, os únicos produtores mundiais de diamante eram a Índia e o Bornéu, com as suas ocorrências a demonstrarem lentos mas efectivos sinais de exaustão de recursos.

Joalharia Portuguesa

A descoberta de diamantes no Brasil, atribuída a sebastião Leme do Prado, terá sido meramente ocasional, tendo ocorrido em 1725, durante o garimpo de ouro no rio de Marinhos (Minas Gerais), onde os garimpeiros, ignorando a sua verdadeira natureza, os recolhiam das suas bateias, guardando-os como recordações. Cedo, porém, foram identificados como diamantes (os mais de 200 anos de experiência diamantária em Portugal assim o facilitaram) e o primeiro diamante brasileiro terá chegado a Lisboa pela mão de Bernardino da Fonseca Lobo em 1727.

Só em 1729 é que a descoberta do diamante no Brasil é oficialmente divulgada em Portugal e, passado um ano, são considerados propriedade da Coroa todos os diamantes encontrados nesta colónia. Posteriormente, em 1734, são reservados para esta todos os de peso superior a 20 quilates, sob pena de pesadas multas.

Joalharia Portuguesa

Será em virtude desta lei que existem intactos os dois diamantes em bruto da coleção do Palácio Nacional da Ajuda com 135 e 35 quilates e descritos no inventário de  D. João VI. Durante o século XVIII, foram explorados no Brasil bem mais de 3000 000 de quilates de diamantes , valor muito superior ao produzido nas anteriores ocorrências indianas e que na época provocou uma brutal descida no seu preço por quilate em bruto.

A importância do diamante brasileiro foi tal que provocou por parte dos mais directos competidores comerciais de Portugal (nomeadamente a Holanda) o lançamento do boato de que estes eram de pior qualidade do que os indianos e que, por isso, não valiam tanto. No Manual do Mineralogico do quimico sueco Torben Bergman, cuja tradução em português foi publicada em 1799, pode ler-se acerca dos diamantes que « Tambem vem do Brasil, porém não são tão perfeitos, como os Orientaes, e são bem conhecidos no comércio pelo nome de diamantes de Portugal». Em resposta ao boato, muitos diamantes brasileiros foram transportados para as Índias e daí re-exportados para a Europa, passando por indianos, conferindo-lhes um maior valor.

Joalharia Portuguesa

Em termos de matéria prima gemológica, temos parte do quadro de produção brasileira no século XVIII brevemente apresentado nos parágrafos anteriores, como o diamante a merecer honras de destaque pois, juntamente com o muito ouro descoberto no século anterior, provocou grandes revoluções na joalharia portuguesa e europeia. Na reallidade, as descrições de jóias na primeira metade da centúria de Setecentos presentes em inúmeros documentos coevos de ourives, ensaiadores e nos arquivos de importantes Casas titulares portuguesas, apontam para uma grande abundância de joalharia com ouro e diamantes em talhes rosa e suas variantes e no então recente talhe brilhante, que inclui provavelmente o talhe com 16 facetas em volta da mesa atribuído ao Cardeal Francês Jules Mazarin 1602-0661), conhecido coleccionador de diamantes, o chamado talhe Peruzzi e Old Mine Cut, já com 58 facetas e que é o precursor do actual talhe brilhante redondo.

Uma curiosidade é a existência de um estilo de lapidação chamado « Talhe Lisboa», que é uma variação do talhe Peruzzi e que terá sido provavelmente desenvolvido no Atelier Real do Campo Pequeno, mas esta referência necessitará no futuro de melhor fundamentação documental. O diamante detinha, como hoje, um grande valor comercial e relativamente fácil liquidez em momentos de aflição, e era, também por isso, pedra muito apreciada. 

Joalharia Portuguesa

Não é, assim, de estranhar que poucos sejam os vestígios de joalharia em ouro ou prata com diamantes da época, até porque, além de muitas terem servido como reserva de valor em momentos difíceis, havia a tendência para utilizar os materiais de jóias usadas em novas criações mais sofisticadas. A ideia de que no século XVIII a mais importante joalharia em portugal era elaborada fundamentalmente com pedras brasileiras é um facto indiscutível, em particular na segunda metade da centúria. 

Ao mesmo tempo, nas fontes documentais da época, surgem descrições de jóias com gemas que aparecem com bastante frequência, merecendo, por isso, algum relevo, pois terão sido amplamente utilizadas em joalharia de alto nível. Falamos de jóias com rubis, esmeraldas e safiras azuis, pedras comercialmente inexistentes no Brasil de Setecentos e de que, uma vez mais, poucos exemplares sobram nos nossos dias, salvo algumas peças presentes, por exemplo, nas coleções do Museu Nacional de Arte Antiga e no Palácio Nacional da Ajuda.

Joalharia Portuguesa

Ao contrário do que por vezes se lê, nunca o Brasil, pelo menos até meados do século XX, foi produtor de esmeraldas, não obstante o seu território albergar hoje alguns dos mais importantes depósitos a nível mundial. As esmeraldas utilizadas na joalharia do século XVIII provinham de Habachtal, na Áustria, mas fundamentalmente da actual Colômbia, chegando aos ourives via Sevilha ou então via rotas do Oriente, o que também provocou confusões de proveniência.

A sua proveniência comercial da Índia, mascarando a sua real origem geográfica ( Colômbia), induziu em erro comerciantes e historiadores que, frequentemente, classificaram esmeraldas desta época como indianas. Prova disso é a descrição que Frei João Pacheco faz desta gema, afirmando que «As do Oriente são mais resplandecentes e maiores do que as Ocidentais e destas há-as grandes como a palma da mão, porém algumas estão cheias de névoas». Esta última consideração, as névoas, é uma clara alusão às inclusões que as esmeraldas habitualmente têm e que na altura eram denominadas por «erva» pelos ourives.

Joalharia Portuguesa

No que diz respeito à localização das ocorrências de esmeraldas na Índia, sabe-se que se deu somente a partir de 1943, afastando qualquer hipótese de procedência oriental destas pedras.No que diz respeito aos rubis, também existem equívocos que se relacionam, não só com a proveniência, mas também com a identificação. Havia na época o hábito de nomear as pedras com denominativos de «Oriental» e «Ocidente», o que se pode conotar com «boa qualidade» e «má qualidade», respectivamente, e não com a proveniência geográfica, como era alegado.

Já Bergman (1799) advertia para isso mesmo, mas tal informação cristalizava no seio das academias científicas e não passava para a nomenclatura comercial « Houve huma grande confusão até estes últimos tempos na nomenclatura das pedras preciosas. Cada author seguio huma marcha diferrente, e deo differentes nomes á tal, ou tal pedra, particularmente se fez distincção de pedras do Oriente, e do Ocidente.

Joalharia Portuguesa

Com tudo esta distinção de pedras Orientaes, e Occidentaes não parece bem fundada. Hum verdadeiro diamante, huma verdadeira saphira são sempre as mesmas, seja qualquer, que foe o lugar, donde vem».

Estas observações partem de um quimico e mineralogista que, para  identicar uma pedra, se baseava mais em critérios científicos do que, simplesmente, na cor, na proveniência e na transparência. Todavia, os parcos conhecimentos gemológicos que caracterizavam o comércio e os compradores promoviam a má identificação dos materiais gemológicos e, por conseguinte, a nomenclatura das pedras preciosas, o que inúmeras vezes provocou más interpretações de documentação.

Joalharia PortuguesaDesde a antiguidade clássica que os rubis e outras gemas avermelhadas eram classificadas como carbúnculos, tal como Theophrastus (315 AC) regista, agrupando-o com a espinela e com a granada. No século XVI esta designação mantém-se, afirmando garcia da Orta, nos seus Colóquios dos Simples e das Drogas, que era utilizado para rubis «...muito finos, em cor e aguoas, (...) de vinte e quatro quilates em cor...».

O mesmo nome se terá mantido, pelo menos até ao segundo quartel do século XVIII, como testemunha João Pacheco, escrevendo que é « ... hum rubi groffo, ou pedra semelhante...». Havia também quem fizesse alguma distração entre as três espécies, denominando o rubi como rubi oriental, a granada como rubi da Boémia e a espinela como rubi-espinela, rubi balaio, rubi ballas ou ballax.

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Não obstante o rubi e a espinela vermelha poderem ser simplesmente separados por meio da sua densidade, o que já tinha sido descoberto no século décimo pelo cientista (então designado alquimista) árabe Al Biruni, ainda era comum, tal como hoje em dia, haver confusões na sua correta identificação.

Daí que sempre que se lê na documentação a designação de rubi, por exemplo na descrição das tradicionais insígnias de ordens militares, haja o cuidado de a ter sob reserva.

No que concerne à proveniência geográfica dos rubis, existem registos de ocorrências importantes no Ceilão, o que, segundo alguns autores, não corresponde bà realidade, já que não existem aí registos mineiros antigos ou actuais da existência de significativas jazidas de rubis de qualidade. O Ceilão era, e ainda hoje é, sob o nome de Sri Lanka, um importante produtor de pedras de cor, entre as quais a espinela, a granada e a safira que, como se sabe, ocorre não só em azul, como em todas as outras cores, incluindo a cor de rosa.

Joalharia Portuguesa

Alguma da má interpretação de textos antigos prende-se com a própria definição de rubi que, em alguns casos, não passarão de safiras rosas de cor saturada, abundantes nesta ilha. Muitas crónicas de embaixadas ocidentais ao Ceilão registam o uso de bons e grandes rubis pelos seus soberanos, o que também deve ser interpretado sob reserva, já que uma embaixada não estaria preocupada em examinar os pertences dos seus anfitriões, limitando-se a relatar o que lhes era mostrado e dito. A serem rubis, seriam provavelmente procedentes de Mogok, no então ^Pegú, hoje Myanmar (antiga Birmânia), que tem uma tradição quase milenar na exploração dos melhores rubis do mundo. 

Julgamos que será essencialmente desta região do sudoeste asiático que provinham os melhores rubis que adornavam as jóias dos tesouros reais europeus, pelo menos desde o século XVI. Outras ocorrências históricas de rubis não podemser excluídas deste panorama, tais como o Sião (Tailândia) e a Índia.

Joalharia Portuguesa

A análise gemológica aprofundada de jóias deste período poderia trazer informações preciosas para secundar ou refutar estas considerações de origem geográfica.A Insígnia das Três Ordens Militares e do passador de Grã- Cruz, em que a primeira apresenta inúmeros rubis e a segunda um rubi de tamanho considerável, que, a ser da época, constitui um bom objecto para  tal investigação.

Esta última peça é interessante por outro motivo, sendo portadora de uma enorme espinela, que já foi estranhamente descrita como «espinela brasileira», evidenciando a importância da espinela como substituto do rubi, quando a dimensão da pedra pretendida significaria preços elevadíssimos se este fosse utilizado.

Joalharia Portuguesa

A safira azul não tem uma presença tão marcante como a do rubi, da esmeralda e do diamante durante o século XVIII. Excepção muito significativa são as safiras azuis do medalhão e pingentes usados pelas rainhas D. Maria Pia e D. Amélia e que actualmente estão no acervo do Palácio Nacional da Ajuda.

A origem destas gemas será muito provavelmente singalesa, se atendermos às suas dimensões , nomeadamente às da que se encontra cravada no medalhão, com mais de 100 quilates, e à sua cor e sua saturação e distribuição. De facto, o  Ceilão forneceu, e ainda fornece, safiras de grande qualidade e tamanho para o mercado internacional.

perola

O material gemeológico que menos vestígios deixou para os actuais estudiosos e apreciadores de joalharia é a pérola. Na documentação lêem-se numerosas descrições de peças com pérolas, entre fios, pulseiras e outras tipologias, e na iconografia é possível observar tais ornamentos. Mas na realidade, poucos são os exemplares que substituiram até aos dias de hoje. A composição e estrutura deste material orgânico tornam-no muito vulnerável aos agentes externos a que são sujeitos devido ao uso: a sua baixa dureza não a protege de eventuais riscos e pancadas e ocorre alteração química em virtude de contacto com a pele, ácidos e outros agentes, provocando a deterioração progressiva do lustro, ficando as pérolas «mortas», utilizando uma expressão popular.

Outros motivos que justifiquem esta escassez de jóias com pérolas poderão ser motivo de interessante estudo mais aprofundado um exemplo sobrevivente será o colar de finais do século XVIII presente na coleção do Museu Nacional de Arte Antiga.

Joalharia Portuguesa

Cumpre aqui fazer algumas considerações sobre a designação da pérola. No século XVI era muito utilizada a designação de «aljôfar» como sinónimo de pérola pequena, podendo também significar pérola em geral, incluindo também as destinadas às boticas para usos medicinais. Esta expressão que deriva do árabe al-djauhar, significando pérola, foi também usada no século XVIII, mas com menor frequência do que em Quinhentos. 

A grande popularidade de pérolas em Portugal terá sido em grande parte impulsionada pelo controlo de mercado que a Coroa teve durante os anos de ocupação de Ormuz e do Ceilão, o primeiro como ponto de passagem das pérolas do Golfo Pérsico, fundamentalmente do Bahrain, e o segundo como local estratégico na exploração das pérolas do Golfo de Manaar (entre a Índia e o Sri lanka). Não são de desprezar as pérolas provenientes da Venuzuela, Baixa Califórnia e Panamá, controladas por Espanha, que durante a centúria de Setecentos sofreram a sua quase total exaustão.

joalharia portuguesa

Posterior investigação poderá dar dados mais concretos acerca da presença destas últimas na joalharia em Portugal.

Encontrando-se já referidas as principais gemas, pelo menos a nível económico, como sejam o diamante, a esmeralda, o rubi, a safira e a pérola, vamos agoa descrever o tipo de materiais gemológicos que, esses sim, tornaram a joalharia portuguesa do século XVIII como uma das mais coloridas, esplendorosas e características da Europa.

Como já foi abordado no ínicio deste texto, durante as expedições dos bandeirantes, muitos foram os materiais gemológicos coloridos que foram trazidos para Portugal em Quinhentos e seiscentos. Pouca importãncia se deu então a estas gemas, o mesmo não se passando nos séculos seguintes. A este respeito deu-se uma alteração significativa na forma como se desenhavam as jóias, passando-se de peças com muito metal (basicamente o ouro) e poucas pedras, a peças com numerosas pedrarias coloridas e variadas, de dimensões significativas, e com o metal presente quase só com a função de suporte ou base de sustentação das pedras.

Uma outra motivação para o emprego destas pedras, tais como, por exemplo, o quartzo hialino (ou cristal-de-rocha), o quartzo ametista, o topázio incolor, amarelo e imperial, a água-marinha e a goshenite berilo incolor, a granada e o crisoberilo, terá sido o facto de estas serem menos dispendiosas, mais abundantes e de maiores dimensões do que as anteriormente referidas.

Esta invulgar abundância de pedraria colorida na joalharia em Portugal tem particular expressão e significado na segunda metade da centúria de Setecentos. Talvez mais do que nos registos dos documentos escritos coevos, existem inúmeros exemplares de joalharia com este tipo de materiais gemológicos, presentes não só nos vários Museus de artes decorativas, como também em coleções particulares de herdeiros de Casas titulares e não só.

Um dado muito interessante na abordagem desta joalharia é a diferença entre a designação habitual e a correcta classificação gemológica das pedras. De uma forma mais marcante do que sucedia com o rubi, também nas pedras incolores havia muita dificuldade em separar as diferentes variedades gemológicas que eram utilizadas em joalharia fundamentalmente de prata.

Os estilos de lapidação empregues eram muito próximos dos utilizados para diamante e as pedras eram normalmente engastadas em cravação fechada e com forro prateado reflexivo, incrementando os seus brilhos. Estas pedras, de relativo baixo preço, ao funcionarem como substitutos do diamante, não se confundindo, contudo, com estes, tiveram uma popularidade que se estendeu até ao século XIX. Sobre estas pedras existe associado um problema de nomenclatura que se tem mostrado bastante polémico no seio dos profissionais de antiguidade e que urge esclarecer com rigor.

É muito frequente, senão constante, a designação de tal material gemológico incolor como «Minas Novas». Das muitas jóias de Setecentos que puderam ser estudadas dos ponto de vista dos seus materiais gemológicos, tanto em coleções de museus em Portugal, como em coleções particulares, foram recolhidos preciosos dados que permitiram chegar a conclusões fundamentadas no que diz respeito a esta designação. 

Joalharia Portuguesa

Não foi, porém, até ao momento, encontrada documentação do século XVIII que fizesse referência a esta alegada gema de nome «Minas Novas». Foi recentemente enviado para várias entidades oficiais ligadas ao comércio de ourivesaria e de antiguidades um comunicado produzido por um laboratório gemológico de Lisboa, abordando com clareza esta temática, e que, pela sua maior importância e oportunidade, apresentamos de seguida em versão adaptada.

Minas Novas: o que são afinal?

Para a grande maioria dos consumidores esta expressão «Minas Novas» significa provavelmente um tipo muito particular de gema incolor proveniente de uma ocorrência algures no Brasil, provavelmente até de minas Novas, uma localidade no Estado de Minas Gerais, de onde já não há produção, o que permite encará-las como pedras raras. Foram caracteristicas gemologicamente centenas de jóias de finais do século XVIII  e principios de XIX) em prata com pedras incolores que estavam referenciadas como «Minas Novas» nos vários Museus Nacionais e coleções particulares que foram abordados para o estudo.

Joalharia Portuguesa

Desta rigorosa e prolongada investigação, foram identificados os seguintes materiais incolores, previamente refenciados como «Minas Novas»:

Quartzo hialino (vulgarmente denominado cristal-de-rocha);

Topázio incolor também denominado «pingo d'água, no Brasil);

Goshenite (berilo incolor);

Água-marinha muito clara (o tom azul deste berilo é quase imperceptível);

Assim apresentamos uma definição possível:

Minas Novas «coresponde a uma gema incolor engastada com forro em joalharia de prata do século XVIII». A Natureza gemeológia da pedra não é relevante, desde que seja incolor, sendo as gemas utilizadas com mais frequência  quartzo hialino, o topazio incolor e a goshenite. A expressão não tem significado gemeológico ou miineralógico, mas têm, isso sim, sigficado histórico e tipológfico com estudos de joalharia.

De facto, e resumidamente, os materiais descritos como «Minas Novas» são variados: o quartzo, o topázio, o berilo (água-marinha de tom pálido; berilo incolor-goshenite) e o vidro. Diga-se que a água-marinha não era utilizada como o é hoje em dia, sendo os exemplares de cor mais pálida empregues como forro prateado juntamente com as acima descritas num mesmo contexto tipológico.

Esta situação não é única no que diz respeito a confusões de nomenclatura. Um outro caso muito frequente é o emprego da expressão «crisólita» para denominar uma pedra amarela-esverdeada que é bastante comum na ourivesaria portuguesa de Setecentos. A realidade é que se trata de um crisoberilo, uma gema que incompreensívelmente consta na literatura gemológica internacional como tendo sido descoberta no Brasil somente no século XIX., aceitando-se que as então existentes procederiam apenas do ceilão e do Pegú.

A palavra crisólita, ou crisólito (do grego khrusus, ouro e lithos,  pedra, ou seja, pedra dourada) era há bem pouco anos normalmente seguida de uma indicação de localidade, sendo atribuída de forma indiscriminada a diversos materiais gemológicos ( por exemplo, olivina, crisoberilo, venuvianite, moldavite e topázio). Já no século XVI teria sido aplicado ao crisoberilo e, provavelmente a outras gemas amarelas (como algumas turmalinas) que vinham do Ceilão, Bornéu e Pegú.

No norte da Europa este nome era referente aos peridotos (olivinas) e provavelmente também ao berilo verde e amarelo, segundo a descrição de bergman. Na actualidade, esta designação «crisólita» ou «crisólito» não tem qualquer suporte mineralógico, não sendo portanto empregue na actual classificação de gemas, tendo apenas, tal como o nome «minas novas», interesse histórico se devidamente contextualizado e compreendido. Curiosamente, Crisólita corresponde ao nome de uma pequena cidade no estado de Minas Gerais, provavelmente uma antiga fonte de crisoberilos.

Revolucionária no panorama gemológico do século XVIII foi a já referida descoberta do topázio amarelo e do topázio imperial e rosa no Brasil que foi amplamente usada na joalharia da segunda metade da centúria, como o demonstram os bastantes exemplos da época. Estas eram amiúde cravadas com forro de cor mais saturada para reforçar a cor muitas vezes mais pálida das gemas originais, prática que era, aliás, repetida com frequência em outros materiais gemológicos, procurando efeitos de cor mais intensos e contrastantes.

Ilustrando isto mesmo, refira-se um outro exemplo da utilização do forro colorido, desta feita no quartzo ametista (variedade violeta do quartzo). As ametistas até então conhecidas eram algo raras e provinham da Europa central, do ceilão e Pegú, mas principalmente da Rússia, sendo estas últimas de um tom violeta intenso, com tonalidades de vermelho, muito apreciado.

Neste contexto, era habitual colocar um forro avermelhado na cravação fechada de quartzos ametistas mais pálidos, obtendo-se uma coloração e brilho mais vivos. A quantidade de ametistas mineradas em Setecentos já era significativa, mas ainda pouco importante, quando comparada com a que sucedeu a descoberta no século seguinte das ainda produtivas e colossais ocorrências no sul do Brasil e no Uruguai, o que vulgarizou bastante esta gema, outrora só acessível às classes mais privilegiadas.

O vidro foi desde sempre um material gemológico artificial que serviu, e ainda serve, de imitação por excelência de pedras preciosas devido à grande variedade de cores em que pode ser fabricado e dado o seu muito baixo preço. De significativa importância gemológica encontra-se a introdução do vidro de chumbo hoje chamado cristal) que foi desenvolvido por Georges-Fréderic Strass no segundo quartel do século XVIII e, por tal, denominado de «strass». 

Este aparecimento revolucionou o comércio de pedraria em vidro, havendo registo de, em 1767, existirem em Paris mais de 300 lapidários de pedras de imitação. Analogamente, havia grandes desenvolvimentos na elaboração de convicentes dobletes. Diga-se que o doblete, ou dupleto, já era referido na antiguidade clássica por Caius Plinius Secundus (23-29 DC), mais conhecido por Plínio. O Velho, na sua muito interessante obra História Natural.

Consiste esta pedra composta numa junção com cola incolor, ou vivamente colorida, de dois pedaços de material transparente ou translúcido em que, habitualmente, a parte de cima é de melhor qualidade do que a base. Já Benvenuto Cellini, um grande ourives de Itália do século Vi, refere dobletes que imitavam rubis consistindo num topo de rubi «indiano» e base de vidro. Em jóias do século XVIII é frequente a utilização de quartzo e/ou topázio com vidro colados com substâncias coloridas de verde para eventualmente simular uma esmeralda.

É de facto, indiscutível quando se refere a centúria de Setecentos como o século da cor e da fantasia na joalharia, com a utilização exaustiva de novos materiais coloridos e de grandes dimensões provenientes do Brasil, em alternativa aos tradicionais diamantes, rubis, esmeraldas e pérolas. Os topázios amarelos, imperiais e rosas, as ametistas, as águas-marinhas, os crisoberilos e variados incolores (quartzo, topázio e berilo) tiveram grande representatividade nas jóias deste período, peças de não tão grande valor como as outras já referidas. Este menor valor terá por ventura constituído a garantia de sobrevivência destas mesmas, tendo sido assim poupadas à venda, descravação e reaproveitamento dos materiais.

Nunca a Europa tinha visto tantos diamantes como nos sessenta a setenta anos que se seguiram à sua descoberta no Brasil e, pelo menos em Portugal, esta abundância teve reflexo claro na joalharia.

Cumpre dizer que um problema que surge com frequencia quando se abordam estudos de joalharia antiga à luz da documentação e com poucas evidências físicas concretas é a questão da interpretação da nomenclatura gemológica. Ainda assim, existe muita ambiguidade na classificação e denominação das gemas neste e noutros períodos, o que implica não só um sólido conhecimento dos vários significados da mesma denominação gemológica, como também de várias denominações por que eram  então conhecidas os mesmos materiais. Importa assim um maior esforço por parte das instituições competentes no apoio à correcta classificação gemológica dos seus acervos para uma caracterização mais completa da joalharia do século XVIII que é, sem dúvida, uma das mais ricas e características da nossa história.     

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